terça-feira, 3 de agosto de 2010

A FÓRCEPS

Recebo o email de uma amiga contando que, mesmo não tendo tempo para mais nada, voltou para as aulas de dança, que está fazendo à noite. Diz ela: "Tem coisas que devemos abrir espaço a fórceps, ou corremos o risco de serem extintas de nossas vidas"

Fórceps todos sabem o que é. Um instrumento que, em obstetrícia, serve para extrair o bebê do útero, nos casos em que ele já está na portinha pra sair, mas não sai. Falando assim, parece uma coisa agressiva, mas não é. É um help. Se a natureza não está ajudando, o fórceps vai lá e puxa o bebê pra vida.

Pois é assim que estamos levando os dias: a fórceps. Se existe uma coisa que não se dilata espontaneamente é o tempo, ao contrário, está cada vez mais apertado, então a gente tem que tratar de extrair tudo o que a gente quer da vida na marra mesmo. Forçando um pouco.
E lá vamos nós pra noite, mesmo com medo da própria sombra. Vamos jantar, vamos ao cinema, vamos ao bar, vamos a casa de amigos, vamos cantarolando dentro do carro e com os vidros bem fechados, vamos despistando as neuras e tentando estacionar bem longe das estatísticas estampadas nas páginas policiais.

E a gente promete nunca mais telefonar para quem nos faz sofrer, mas acaba telefonando, e ele atende, e implica, e a gente some, e ele chama, e a gente volta, e briga, e ama, e sofre, e ama, e ama, e ama, e desama, e termina, e quando parece que cansamos, que não há mais espaço para um novo amor, outro aparece, outro parto, começa tudo de novo, aquele ata-e-desata, o coração da gente sendo puxado pra fora.

E a gente faz mágica: vive 32 horas por dia, oito dias por semana, 14 meses por ano - e com um salário microscópico. Fazemos a volta ao mundo com meio tanque de gasolina, dormimos seis horas por noite, sonhamos acordadas o tempo inteiro. Bebemos um drinque com as amigas e voltamos para casa sóbrias, entramos no quarto das crianças sem acordá-las, um pássaro não seria mais leve. Lemos todos os livros do mundo nos intervalos da novela, paramos dois segundos para olhar o pôr-do-sol pela janela, telefonamos para nossa mãe ao mesmo tempo em que respondemos o e-mail de um cliente, e se alguém sorri para nós, a gente se aproxima, se arrisca e renasce nessas chances de vida. Porque senão é da casa pro trabalho e do trabalho pra casa, deixando o tempo agir sozinho, esperando dilatações espontâneas. E, como elas não acontecem, permanecemos paralisadas na vidinha mesma de sempre, lamentando o fim das nosssas aulas de dança.

MARTHA MEDEIROS - Coisas da Vidas - Crônicas.

domingo, 11 de julho de 2010

PERDER A VIAGEM

Você pede ao patrão para sair mais cedo do trabalho, aí pega um ônibus lotado, vai para um consultório médico que fica no outro lado da cidade, gasta seus trocados, seu tempo e seu humor e, ao chegar, esbaforido e atrasado, descobre que sua hora, na verdade, está marcada para a semana que vem. Sinto muito, você perdeu a viagem.

Todo mundo já passou por uma situação assim, de estar no lugar errado e na hora errada por pura distração. Acontecendo só de vez em quando, tudo bem, vai pra conta dos vacilos comuns a qualquer mortal. O problema é quando você se sente perdendo a viagem todos os dias. Todinhos. É o caso daqueles que ainda não entenderam o que estão fazendo aqui.

Estão perdendo a viagem aqueles que não se comprometem com nada: nem com o ofício, nem com um relacionamento, nem com as próprias opiniões. Estão sempre flanando, flutuando, pousando em sentimento nenhum, brigando por idéia nenhuma, jamais se responsabilizando pelo que fazem, pois nada fazem. Respirar já é para eles tarefa árdua e suficiente. E os dias passam, e eles passa, e nada fica registrado, nada que valha a pena lembrar.

Estão perdendo a viagem aqueles que, em vez de tratarem de viver, ficam patrulhando a existência alheia, decretando o que é certo e errado para os outros, não tolerando formas de vida que não sejam padronizadas, gastando suas bocas com fofocas e seus olhos com voyeurismo, sem dedicar o mesmo empenho e tempo para si mesmos.
Estão perdendo a viagem aqueles preguiçosos que levam semanas até dar um telefonema, que levam meses até concluir a leitura de um livro, que levam anos até decidir procurar um amigo. Pessoas que acham tudo cansativo, que acreditam que tudo pode esperar, que todos lhe perdoarão a ausência e o descaso.
Estão perdendo a viagem aqueles que não sabem de onde vieram nem tentam descobrir. Que não sabem para onde ir e nem tentam encontrar um caminho. Aqueles para quem a televisão pode tranquilamente substituir as emoções.

Estão perdendo a viagem todos aqueles que se entregam de mão beijada às garras afiadas do tédio.

Martha Medeiros.
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Crônica retirada do livro COISAS DA VIDA de Martha Medeiros. São crônicas muito boas e estou selecionando algumas que valem a pena passar adiante.

Liana

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Uma gotinha de URBANISMO.

Minha memória é um pouco atrapalhada, mas me lembro de ter lido uma frase que de uma certa forma ficou em meus pensamentos, a de que "Arquitetos falam e escrevem para Arquitetos." No exato momento em que registrei esta frase em minha mente me dei conta de que é um fato, a grande maioria de profissionais da área tratam do assunto com uma linguagem que um outro colega de profissão entenderá facilmente, ou até mesmo algum curioso e estudioso da Arquitetura. Mas aquele que mais precisa compreender acaba se perdendo um pouco em termos e citações um tanto técnicos ou embaraçados para ele.


Quero poder contribuir para o entendimento de todos sobre esse universo que é a Arquitetura e o Urbanismo.



Conversando com um amigo na semana passada sobre urbanização, percebi que os conceitos podem ser variados, mas o Brasil conhece pouco. Existem sim, muitas capitais brasileiras que possuem um planejamento mais adequado, mais estudado e detalhado sobre áreas de urbanização. Mas o que é Urbanismo?


Urbanismo essencialmente é uma ciência humana, que precisa sempre estar atualizada de acordo com a demanda ou problemas causados pelo crescimento demográfica. Mas ela sozinha não se basta, é de fundamental importância a qualidade da contribuição de áreas como a ecologia, ciências sociais, geografia entre outras, porque o meio em que se vive, seja ele rural ou urbano, precisa de adaptações para o convívio harmonioso entre Meio Ambiente e Ocupação humana.


Quando você tem uma cidade urbanizada, se faz necessário o Planejamento Urbano, que nada mais é que um estudo de melhor adequação do uso do espaço, prezando pela qualidade de vida dos seres humanos.


Um ponto interessante e que vale ser ressaltado é: QUALIDADE de vida.


Quando você fala em Urbanismo, imediatamente as pessoas pensam em carros correndo de um lado para outro, em sinalização de pistas, prédios, casas, etc. Não é uma idéia errada, mas não é 1/3 do geral. Todo mundo sabe a importância que tem para um país ter uma cidade desenvolvida, mas em prol dessa importância, a qualidade de vida é deixada em segundo ou terceiro plano, em alguns casos ela nem existe. Vamos empilhar famílias, como diz um colega de twitter, mas vamos empilhar de forma sábia, no Brasil está tendo uma disseminação de grandes condomínios de apartamentos, luxuosos, em lugares privilegiados  e vendidos em menos de 48 horas. É claro que verticalizar é uma grande solução para o crescimento populacional de uma cidade/país, mas então é só empilhar empilhar e empilhar?


Vamos construir prédios de apartamento que possam dar ao usuário um AR de lar, vamos contruir esses prédios em lugares adequados e não em grandes avenidas, vamos pensar na topografia, vamos pensar no igarapé que está logo alí e que pode encher e mudar de tamanho, vamos utilizar materiais sustentáveis. Não é porque o vidro é a nova moda de Londres que irei aplicar em projetos na cidade de Manaus, uma cidade com um clima singular e que precisa de novas alternativas.


O Brasil olha muito para fora e esquece de se observar, e é assim que o mundo capitalista segue em frente e a qualidade de vida vai ficando para trás.


O Plano diretor, que é um instrumento utilizado para nortear o crescimento de um município, é formado por leis que possuem a finalidade de preparar o meio urbano para o crescimento de uma forma consciente. Mas o que se vê, principalmente pelos profissionais da área do Urbanismo, é que este mesmo instrumento tem lacunas por onde passam as "irregularidades" urbanísticas, é só você ter um bolso um pouco mais recheado que o céu é o limite.


Me desculpem se acabei aqui fazendo uma crítica, considerem como um desabafo.


Urbanismo é muito mais do que posso escrever aqui, mas espero ter colocado uma gotinha a+ no conhecimento de todos. Este é um assunto que me interessa muito, mas vou deixar para escrever um pouco mais em outros posts, pois se escrevo tudo neste ele irá ficar tão grande que logo vai espantar os leitores.


Até Breve.


Liana

quinta-feira, 17 de junho de 2010

PARCERIAS

Todo trabalho em equipe requer algumas exigências. Para os Arquitetos isto não é diferente, é muito complicado sair da faculdade e conseguir capital para montar o próprio escritório, a solução imediata é montar um com aqueles que você mais tem afinidade de trabalho. Lendo a revista aU - Arquitetura e Urbanismo, achei interessante algumas DICAS para que o trabalho em equipe, ou a parceria gere bons frutos, bons negócios.

Liana

PARA O TRABALHO CONJUNTO DAR CERTO:

  • As partes envolvidas devem estar constantemente abertas ao diálogo.
  • As bases de atuação de cada arquiteto ou escritório devem ser estabelecidas no início do processo.
  • É importante que haja afinidade entre os profissionais. Uma sucessão de trabalhos conjuntos aprimora o entrosamento entre os parceiros e ajuda na obtenção de melhores resultados.
  • Decidida a parceria, torna-se necessário estabelecer a remuneração das partes, o local de trabalho, qual equipe será alocada e quais consultores participarão do projeto.
  • Estabelecidas as condições de responsabilidade das equipes, é preciso, então, recolher as ARTs dos corresponsáveis técnicos perante o Crea.
  • As responsabilidades serão atribuídas a empresa ou a indivíduos, de acordo com o Código de Responsabilidade Profissional. Uma vez compreendida as atribuições específicas das partes, deverá constar o registro do que foi acertado.
  • Quando o projeto é desenvolvido fora do país de origem do escritório contratado, o escritório local responde por fornecer os parâmetros locais, sejam técnicos ou legais, e eventualmente readaptar o projeto para a construção; à medida que o projeto avança, a participação do escritório-autor tende a decrescer, realizando apenas a supervisão dos produtos.
Dicas retiradas da revista: aU - Arquitetura e Urbanismo, ano 25. Nº 192. Março 2010

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Eu caso ou compro uma bicicleta? O que você acha?
A indecisão é algo que acompanha e aflige algumas pessoas, uns são mais diretos e objetivos, outros podem passar horas de seus dias pensando em quais seriam as consequências de uma decisão, seja ela certa ou errada. O fato é que você precisa fazer escolhas apartir do momento em que nasce, até os 13 anos elas circulam alí entre roupas [estilo] e diversão [video-games e etc.]. Mas quando se alcança os 17 anos, tudo parece ganhar um "ar" mais sério, é preciso decidir a profissão, escolher os verdadeiros amigos, pior ainda é saber identificá-los primeiro.




Algumas destas escolhas podem se refletir para o resto da sua vida, pequenas oportunidades aparecem todos os dias, você pode até não vê-las mas elas estarão lá. Acordar e perceber cada mudança não é algo difícil, basta um pouco mais de atenção e observação, com o tempo se desenvolve um faro sutil capaz de perceber mudanças e oportunidades antes que sejam anunciadas.

Sidharta sempre disse "o caminho do meio é o melhor a ser seguido". O que ele quis dizer é que os extremos são fatais, não se pode fazer nada de mais ou nada de menos, mantenha-se equilibrado.

Dessa forma você pode enxergar tudo com mais clareza, podendo escolher com a razão e seguir sem peso na consciência.

Mas não esqueça, a cada escolha .. uma renúncia. Veja sempre ao que você está disposto a renunciar, seja objetos, afetos, amores ou amizades, para seguir sem remorso, com a certeza de que aquela foi a melhor decisão a ser tomada.
Pensar nos outros é a primeira coisa que lhe vem a cabeça quando é preciso tomar uma decisão, isso é válido, mas não é a única coisa a se fazer. Em primeiro lugar pense em você, pense sobre seus objetivos, se não traçou metas ainda é hora de traçar. Não é uma questão de ser ou não ser egoísta, é uma questão de amor próprio e auto-conhecimento, afinal, você não é o Super Mario andando por aí quebrando tijolinhos e encontrando 1UP de bônus.
A realidade é que no fundo, nós estaremos todos juntos .. e sozinhos, ninguém passará a mão na sua cabeça, portanto não fique se lamuriando.
Lembre-se: A felicidade é uma viagem e não um destino.


Liana

quinta-feira, 6 de maio de 2010

DICAS para preparar seu portfólio

  • Os textos de apresentação devem ser breves e diretos, com as intenções e os contextos dos projetos.
  • É importante priorizar as apresentações visuais dos projetos, incluindo fotos, imagens em 3D, plantas, cortes, maquetes e outros materiais gráficos.
  • Os desenhos técnicos também devem ser sucintos. Eles devem conter só as informações essenciais, para não ficarem visualmente poluídos.
  • O portfólio deve ser atualizado, de preferência, ao final de cada obra importante do escritório. Se não for possível, aconselha-se que a atualização aconteça no máximo a cada ano.
  • Ao contratar um fotógrafo, apresente-o ao projeto e aos principais conceitos que nortearam seu desenvolvimento. As informações o ajudarão a interpretar a obra e criar uma narrativa em imagens.
  • Reserve um ou dois dias inteiros para a sessão de fotos do projeto. Para captar todas as possibilidades de luz que incidem no edifício, o fotógrafo poderá fazer fotos antes do amanhecer e até depois do anoitecer.

texto retirado da revista aU - arquitetura e urbanismo; ano 25; nº 193; abril 2010

sexta-feira, 30 de abril de 2010

50 anos DEPOIS


"Dois eixos desenhados à mão se cruzam em um ângulo reto, em uma folha de papel. Lucio Costa marcava a primeira forma de Brasília. Apenas três anos depois a nova capital brasileira ganhava forma e função, erguidos os principais edifícios com desenho de Niemeyer. Estava concluído o projeto de Juscelino Kubitschek, provando que era possível construir uma cidade em um cerrado despovoado, em um planalto de infinitos horizontes, e fazer dela a capital.

Mas não podia ser qualquer cidade, era preciso ter um quê de monumental, causar frio na barriga, provar que o Brasil era capaz de construir uma nova idéia de cidade, do zero, e em meio ao debate urbanístico da época: aqui, seguem-se os preceitos de um urbanismo modernista. Para levantar a nova capital, 60 mil trabalhadores se mobilizaram, de todas as partes do país. Operários, médicos, arquitetos, engenheiros, sozinhos ou em família desbravaram um descampado e viveram histórias únicas, seja no sonho da nova capital, seja num ideário de melhoria de vida (a própria ou a do Brasil). Meio século se passou e o debate vai além da necessidade ou da importância da transferência da capital. É preciso avaliar as mudanças de Brasília, suas novas arquiteturas, pensar a cidade não como histórica, mas como uma metrópole do futuro. É com esse objetivo que produzimos esta edição, com textoos que remontam ao concurso para a capital; analisam as transformações pelas quais passou; mostram obras concluídas recentemente e fazem um panorama de outras que estão por vir.

Passado, presente e futuro de Brasília. Mais do que celebrar seu 50º aniversário, propormos um debate para a nossa capital."

Bianca Antunes

texto retirado da revista aU - arquitetura e urbanismo, Ano 25, Nº192, Março 2010.